Saara ocidental seria o novo Golfo Pérsico?
O noroeste da África pode se tornar, nas próximas décadas, uma das regiões geopolíticas mais sensíveis do planeta. A razão principal é a enorme concentração de reservas de fósforo, mineral essencial para a produção de fertilizantes e, consequentemente, para a agricultura mundial. Grande parte dessas reservas encontra-se no território do Saara Ocidental e em áreas controladas pelo Marrocos, que juntos concentram cerca de 80% das reservas conhecidas desse recurso estratégico. O fósforo é um elemento químico insubstituível na agricultura moderna. Sem ele, a produção de fertilizantes cai drasticamente, o que pode afetar diretamente a produtividade agrícola global. Em um mundo cuja população continua crescendo e cuja demanda por alimentos aumenta constantemente, o controle de reservas desse mineral pode se tornar um fator decisivo de poder geopolítico.
Atualmente, o Marrocos, por meio da estatal OCP Group, já exerce grande influência no mercado internacional de fertilizantes. Entretanto, caso as reservas mundiais fora do norte da África comecem a se esgotar ou se tornem economicamente inviáveis, o valor estratégico dessa região poderá aumentar ainda mais. Nesse cenário hipotético, o noroeste africano poderia assumir uma posição semelhante àquela ocupada pelo Oriente Médio no século XX em relação ao petróleo. Uma possível tensão geopolítica poderia envolver as potências europeias e os Estados Unidos. Países europeus dependem fortemente da importação de fertilizantes e possuem uma ligação histórica, econômica e geográfica com o norte da África. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos também têm interesse em garantir cadeias de suprimento seguras para a agricultura global, especialmente para evitar choques no mercado internacional de alimentos.
Em um cenário especulativo de maior competição internacional por recursos, a União Europeia poderia tentar reforçar sua presença política, econômica e até militar na região, buscando acordos estratégicos com Marrocos e outros países africanos. Isso poderia envolver investimentos massivos em infraestrutura, mineração e segurança regional. Por outro lado, os Estados Unidos poderiam ver essa aproximação europeia como uma tentativa de monopolizar um recurso crítico para o sistema alimentar global. Como resposta, Washington poderia buscar alianças alternativas na região ou incentivar acordos comerciais que garantissem acesso direto às reservas de fósforo.
Caso instabilidades políticas internas, disputas territoriais ou movimentos separatistas — especialmente relacionados ao Saara Ocidental — se intensifiquem, a região poderia tornar-se um ponto de atrito entre diferentes potências externas. Cada ator internacional poderia apoiar governos, grupos políticos ou acordos específicos para garantir influência sobre as reservas minerais. Em um cenário extremo, o controle do fósforo poderia tornar-se tão estratégico quanto o controle do petróleo foi durante o século XX. Nesse contexto, bases militares, acordos de defesa e presença naval no Atlântico e no Mediterrâneo poderiam aumentar significativamente.